Entrevista a Susana Marques

03-09-2019 11:52

A mediadora imobiliária explica os pontos importantes de uma atividade que tem influenciado a economia no plano nacional, mas sobretudo nas Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto. Susana Marques revela algumas razões que estiveram por detrás da crise financeira do início da década, além de fazer uma comparação entre a realidade portuguesa e a norte-americana.

 

"A habitação é um bem de primeira necessidade"

 

De que forma o mercado imobiliário consegue influenciar a economia nacional?

Na nossa sociedade, os edifícios são um bem essencial à atividade humana. A habitação é um bem de primeira necessidade. Por isso, quer se queira quer não, a transação de imóveis será sempre uma realidade. Seja para compra ou arrendamento, as pessoas têm que ter onde viver e trabalhar. Desta forma, todas as atividades estão relacionadas com o imobiliário e, consequentemente com a economia. Um exemplo disso são as receitas fiscais que o mercado imobiliário gera.

Como avalia o estado do mercado imobiliário em Portugal?

Entre 2008 e 2013 os preços da habitação sofreram quedas excessivas, tendo atingido o ponto mais baixo em 2013. No ano seguinte, a economia começou a recuperar sustentadamente, tendo-se assistido, a partir de 2015 a uma explosão imobiliária.

Quais foram as consequências positivas na economia?

Os estrangeiros começaram a olhar para Portugal como uma boa aposta de investimento. Por exemplo, o facto de ter existido mais investimento em alojamento local, em hoteís, o programa "residentes não habituais", os Vistos-Gold e os benefícios fiscais para estrangeiros vieram impulsionar o turismo, contribuindo para a valorização do mercado imobiliário e consequente entrada de capitais internacionais em Portugal.

E as negativas?

Os atuais preços de mercado dos imóveis, sobretudo em zonas como Lisboa, Porto e Algarve dificultam o acesso quer na compra, quer no arrendamento à classe média portuguesa.

Como analisa a procura de habitação em Lisboa?

No final de 2018, verificaram-se sinais de enfraquecimento na compra e venda de imóveis e consequente tendência da estabilização dos preços dos imóveis. Daí estarmos a assistir a uma postura mais defensiva por parte dos compradores. Os compradores sabem que é frequente que o valor pelo qual é vendido um imóvel seja inferior ao valor anunciado. No entanto, esperam comprar pelo menor valor possível. Por isso, acabam por ser mais cautelosos na compra. Antes da crise a taxa de desconto era em média 10%. Atualmente duplicou para 22% nas Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto. Talvez por isso se tenha verificado um aumento do tempo de venda dos imóveis, pois alguns proprietários têm expectativas de preços irrealistas da procura efetiva.

Qual é a realidade do mercado no resto do país?

Existe mais especulação em Lisboa, Porto e Algarve por causa da elevada procura.

De que forma se pode resolver o problema do acesso à habitação dos jovens?

Neste momento, a maioria dos jovens não têm a possibilidade de comprar uma casa nos primeiros anos da vida profissional. No entanto, já começa a ser desenvolvido o conceito de co-living, em que as pessoas com os mesmos objetivos partilham os apartamentos e moradias.

Quem costuma optar pelo arrendamento?

Sobretudo pessoas que necessitam de assegurar a sua mobilidade a nível profissional ou que não conseguem ter acesso a financiamento.

Que tipo de semelhanças existem entre o setor imobiliário em Portugal e nos Estados Unidos?

O mercado imobiliário norte-americano é mais maduro que o português porque já viveram várias bolhas imobiliárias, financiadas pela banca. Em certa medida esse movimento foi parecido com o que sucedeu em Portugal até aos anos da crise.