Entrevista a Patrícia Da Cruz Algarvio

12-11-2025 18:27

A militante da JS Covilhã entende que o Partido Socialista necessita de liderar a oposição através da apresentação de alternativas sérias, fiscalizar o governo e ouvir as preocupações da sociedade. Patrícia Da Cruz Algarvio não tem dúvidas que José Luís Carneiro deve manter-se na liderança porque os portugueseconfiaram nas propostas do partido durante as últimas autárquicas, mas deve haver uma reflexão interna caso António José Seguro não alcance a segunda volta das eleições presidenciais.  

 

“Os resultados eleitorais do Partido Socialista exigem momentos de mudança e reflexão”  

 

Como analisa os resultados eleitorais do Partido Socialista neste ano? 

No meu ponto de vista, os resultados eleitorais do Partido Socialista já viveram dias melhores e, este ano, exigem momentos de mudança e de reflexão. É certo que houve trabalho bem feito, mas também temos de reconhecer os erros cometidos pelo partido e perceber que há um claro sinal de que precisa de se aproximar mais das pessoas, especialmente de nós, jovens. O PS tem de voltar a conquistar a confiança da juventude, dar-lhes mais espaço de participação e valorizar as suas ideias. Só assim, com mais abertura e diálogo, o Partido Socialista poderá reforçar o seu papel como força política progressista e do futuro. 

Considera que o PS lidera a oposição por ter sido o segundo partido com mais votos nas últimas eleições legislativas? 

Considero que, nas últimas eleições legislativas, o Partido Socialista sofreu uma grande retração, mostrando que há áreas em que é necessário reforçar a ligação com os eleitores. No entanto, nas autárquicas, conseguimos recuperar e mostrar que continuamos vivos e relevantes, mantendo a confiança do povo português no socialismo. Ficou claro que o PS mantém a sua credibilidade junto dos cidadãos, mostrando que o apoio vem do povo e que este não é um partido de um só. Liderar a oposição não depende apenas de ser o segundo partido mais votado. Ser oposição implica apresentar alternativas sérias, fiscalizar o governo e ouvir a sociedade, garantindo que cumpre o seu papel de forma construtiva e comprometida com o futuro do país. 

Qual foi a principal mensagem que os eleitores quiseram dar ao PS nas autárquicas? 

Penso que a principal mensagem que os eleitores quiseram transmitir ao PS nas autárquicas foi que continuam a acreditar e a confiar no partido. Este resultado mostra que o trabalho realizado foi reconhecido e que há, por parte do povo, uma expectativa de continuidade e de melhoria constante, com proximidade e compromisso com políticas que façam a verdadeira diferença na vida das pessoas, sobretudo na vida dos jovens, que são, aliás, os que mais se têm afastado do partido recentemente. 

Quais são as principais diferenças das lideranças de Pedro Nuno Santos e José Luís Carneiro? 

Na minha opinião, as principais diferenças entre Pedro Nuno Santos e José Luís Carneiro residem em vários aspetos. Pedro Nuno Santos tem trajetória ligada a infraestruturas, habitação e juventude, com experiência na implementação de projetos de âmbito nacional, enquanto José Luís Carneiro se destaca pela experiência em administração interna e segurança, com forte ligação às estruturas locais do partido. Além disso, cada um desenvolveu diferentes perspetivas de liderança e gestão, refletindo áreas de intervenção distintas dentro do Partido Socialista. 

Na sua opinião qual foi o motivo para o PS apoiar a candidatura presidencial de António José Seguro? 

A meu ver, o Partido Socialista apoiou a candidatura presidencial de António José Seguro por se tratar de um candidato com experiência política consolidada e que representa os valores e princípios do partido. O apoio visa garantir uma candidatura coerente com o PS, capaz de promover diálogo, estabilidade e continuidade das políticas progressistas que o partido defende. 

Quais serão as condições políticas do atual secretário-geral se António José Seguro não passe à segunda volta das presidenciais? 

Penso que, caso António José Seguro não passe à segunda volta das eleições presidenciais, o atual secretário-geral do Partido Socialista enfrentará um momento natural de reflexão interna. Será importante analisar os resultados, compreender a mensagem que os eleitores quiseram transmitir e reforçar a ligação entre o partido e a sociedade. Independentemente do resultado, o essencial será manter a unidade do PS, consolidar o trabalho desenvolvido e continuar a afirmar o partido como uma força de confiança e de futuro. 

De que forma o PS deve combater o crescimento dos populismos?  

O populismo deve ser combatido com informação verdadeira e com mais esclarecimento. Muitos populismos crescem porque existe desinformação e falta de confiança na política. O Partido Socialista, especialmente através dos jovens, deve ter um papel ativo em combater essas narrativas falsas, explicando os factos de forma clara e acessível. Acredito que é com diálogo, transparência e proximidade que conseguimos mostrar que a política pode ser uma força positiva e de confiança. 

Em que momento político o PS deve mostrar disponibilidade para formar um bloco central com o PSD? 

Na minha opinião, um bloco central entre o PS e o PSD só deve ser considerado em momentos excecionais, quando estiver verdadeiramente em causa a estabilidade do país. O PS deve estar sempre disponível para o diálogo e para construir consensos, mas sem perder a sua identidade nem os valores que o distinguem. Acredito que o papel do PS é continuar a ser uma força de progresso e justiça social, sempre com responsabilidade, mas fiel às suas convicções. 

O PS tem de ter receio da extrema-esquerda? 

Pelo que aprendi nas aulas de História, tudo o que é extremo tende a ser mau. Por isso, é importante manter distância de posições extremistas e combater qualquer forma de extremismo. O PS não deve ter receio da extrema-esquerda, mas sim saber distinguir-se dela. O Partido Socialista tem um projeto próprio, responsável e realista, que procura equilibrar o progresso social com a estabilidade económica. Ainda assim, é essencial manter o respeito por todas as forças políticas, porque a democracia vive da diversidade de ideias. 

As novas tecnologias também têm sido a única forma do PS conseguir chegar aos mais novos? 

As novas tecnologias são, sem dúvida, uma ferramenta fundamental para o PS chegar aos mais novos, mas não a única. É importante também manter proximidade direta com a juventude através de ações, debates e projetos locais. A combinação de presença digital com contacto real permite ao Partido Socialista transmitir os seus valores e políticas de forma mais próxima, inclusiva e eficaz. 

O legado de Mário Soares tem de estar sempre nessa mensagem? 

Sem dúvida que sim. Mário Soares, além de ter sido fundador e principal rosto do Partido Socialista, foi também um pilar da democracia. Enfrentou o Estado Novo e lutou persistentemente contra a ditadura de António Salazar, sendo uma figura central na transição para a democracia após o 25 de abril de 1974. Teve ainda um papel crucial na integração de Portugal na então Comunidade Económica Europeia (CEE), moldando o futuro do país e a orientação política do PS no contexto europeu. Será sempre lembrado como o homem que nunca desistiu, simbolizando coragem e perseverança nos ideais socialistas e democráticos, mesmo perante a opressão e os desafios políticos.