Entrevista a Maria Guimarães

09-01-2026 18:40

 

 

A jornalista garante que as notícias não podem existir sem as pessoas, mesmo aquelas que não gostam de aparecer na televisão. Maria Guimarães revela os benefícios e as dificuldades de informar o telespetador a partir da rua, além de explicar as alterações que o jornalismo tem vindo a sofrer por causa da evolução da tecnologia.  

 

"O jornalista nunca deve tentar decorar durante uma reportagem em direto" 

 

Como nasceu a vontade de ser jornalista? 

Lembro-me de fazer, em pequena, entrevistas à minha família. Recordo-me com bastante carinho de uma entrevista que fiz à minha bisavó, Elvira. Desde cedo soube que a minha paixão iria ser a comunicação, era parte da minha personalidade falar e gostar de ser ouvida e de escutar também. Aliás, uma outra memória que tenho é de ir para o quintal da minha avó falar com as flores dela para saber se estavam bem e se precisavam de alguma coisa. Com o passar dos anos, fui ganhando o dito “bichinho” pelo jornalismo e uma crescente admiração pela televisão, mas também pela rádio.   

Qual deve ser a função principal do jornalista? 

Penso que a função principal de um jornalista seja mesmo informar, mas também dar voz e ouvir as pessoas. São as pessoas que fazem as notícias, que criam informação, daí ser essencial o jornalista ir para o terreno e sentir as realidades por trás da informação. 

Qual foi a maior descoberta que conseguiu obter como jornalista?  

Apesar de já ter alguma experiência na área, exerço esta profissão  relativamente pouco tempo. Portanto, para já, considero não ser justo classificar as “descobertas” que têm feito parte do meu percurso. 

Em que momento é preciso mostrar alguma tolerância com os outros durante as reportagens a partir da rua? 

Até agora, não tive grandes desacatos nas reportagens de rua. Mas considero que tem de haver sempre tolerância. Entre jornalistas tenho assistido a um bom ambiente entre todos, mas claro que existem sempre exceções. E também com a população, por vezes, pode haver mal-entendidos, porém estamos a fazer o nosso trabalho e se tivermos a consciência limpa, a tolerância vai ser fácil de aplicar. 

As redes sociais estão a tirar valor ao jornalismo a partir da rua? 

Estamos a assistir a uma emergência de informação nas redes sociais, mas também de meios de comunicação a partir delas. Canais de televisão a serem substituídos por plataformas no YouTube e jornais online ao invés de em papel. É o futuro, no final de contas. Muita informação se perde nas redes sociais, fruto da constante disseminação de informação, mas para isso também a sociedade tem de ter literacia para compreender e interpretar aquilo que está a ser demonstrado.   

Que imagem pretende transmitir sempre que realiza uma reportagem? 

Sempre que vou em reportagem pretendo transmitir aquilo que estou a ver/ vi. É muito importante que o jornalista tente ser um espelho da realidade porque só assim a informação é bem transmitida. Sempre que possível, gosto de começar as reportagens pelas pessoas, pelas suas histórias ou por interações que tiveram comigo. São essas histórias que os espectadores gostam de saber e é isso que diferencia as reportagens de jornalista para jornalista.   

Conhecer as histórias de vida das pessoas é o maior prazer que um jornalista pode ter?   

Acredito que isso seja a base da profissão: ouvir e contar histórias. Já ouvi várias histórias no terreno que, apesar de não serem “notícia” ficaram-me na memória. Estar com as pessoas, ouvi-las e mostrar compreensão é algo humano e que deve ser feito até porque nunca se sabe totalmente a história de cada um e pelo que cada um passou. Cabe a todos, enquanto pessoas, desempenhar esse papel de ouvir. Mas é adorável quando temos uma história de vida que, sendo notícia, podemos mostrar ao mundo (e não sabemos o quão importante é para essa pessoa ter esse momento de reconhecimento). Portanto, para mim, sim, é um privilégio e um prazer poder ouvir essas histórias; mas deve ser um prazer e privilégio para qualquer ser humano conhecer um pouco mais as pessoas que nos rodeiam. 

A velocidade com que se tem de obter uma informação continua a ser um problema para o jornalista? 

Atualmente, o jornalismo baseia-se muito nas agências noticiosas (como é o caso da Lusa) para obter a informação base. Portanto, a dificuldade não está diretamente em obter essa informação, mas às vezes está em obter fontes para as nossas notícias. Principalmente em televisão, muitas pessoas não querem aparecer à frente da câmara e isso é obrigatório para o nosso trabalho. Quando são fontes institucionais (câmaras municipais, polícia…) costuma ser mais fácil, mas, nas reportagens mais espontâneas, é sempre mais complicado. Mas também é esse desafio que nos move profissionalmente. 

Concorda que o jornalismo feito a partir da rua é diferente todos os dias? 

Claro que sim! O país e o mundo mudam todos os dias, portanto a realidade está constantemente a mudar. E também porque o jornalismo de rua depende sempre de pessoas e todas as pessoas são diferentes. 

O improviso continua a ser a melhor forma para resolver um esquecimento durante uma reportagem em direto?   

O meu conselho para as reportagens em direto é nunca decorar. O improviso só é possível se realmente não houver nada decorado na cabeça, senão, quando nos esquecemos, não conseguimos pensar em mais nada. Saber os tópicos e as informações base, conhecer a história que vamos contar… é isso que é essencial para um direto correr bem. E claro, juntar o improviso na receita é essencial. O importante é, quando tivermos os olhos dos portugueses em nós, pensar nas informações que queremos dizer e construir uma narrativa a partir daí. No final de contas, o jornalista tem como missão transmitir a informação de forma clara. 

O jornalista tem mais liberdade na rua?   

Em reportagens “menos informativas” o jornalista tem sempre mais liberdade. Mas quando estamos no terreno, no geral, temos liberdade para pensar como queremos construir a narrativa. Podemos começar com uma interação de alguém, com uma história, com uma frase criativa…. Acabamos por ter sempre liberdade, mas, como é no terreno que nos encontramos com a informação, é no terreno que começamos a magicar como queremos contar a história.