Entrevista a Irina Svechnikova

25-03-2026 13:51

A professora conseguiu uma adaptação rápida a Portugal devido ao acolhimento que a família teve por parte da comunidade algarvia, nomeadamente pela educadora de infância do filho e do sacerdote ortodoxo de Faro. Irina Svechnikova também foi obtendo algumas oportunidades profissionais devido à sua criatividade nas áreas da música e da escrita, tendo garantindo que dificilmente voltará a viver na Rússia. 

 

"Os portugueses são muito cordiais uns com os outros" 

 

Por que razão decidiu vir viver para Portugal?

Eu sempre quis viver num lugar com mais sol e temperaturas amenas. Em São Petersburgo, de onde sou natural, há pouca luz solar durante grande parte do ano. Apesar da enorme beleza da cidade e da sua vida cultural rica e intensa, sentia dentro de mim o desejo de procurar outro lugar para viver. Mais tarde, juntaram-se também razões de ordem política, e acabámos por deixar a Rússia em 2015.  

A partir de que momento as expectativas criadas em relação ao país começaram a verificar-se? 

Praticamente de imediato. Chegámos ao Algarve em meados do outono e passámos muito tempo ao sol — o inverno foi muito ameno e quente (o que não se pode dizer do atual). Senti uma atitude muito acolhedora por parte dos portugueses em relação à nossa família, e fiquei particularmente tocada com a forma como o meu filho (tinha então quatro anos e meio) foi recebido no jardim de infância. A sua primeira educadora, Lina, teve um papel muito importante, tanto na aprendizagem da língua portuguesa como na sua socialização. No entanto, havia algo que me entristecia: não existia aqui aquela vida cultural que me era tão familiar em São Petersburgo...Foi necessário habituar-me a algo novo — e também começar a criá-lo nós próprios.

Qual foi o primeiro contratempo que teve em solo português? 

Ah, isso foi muito sério. Em janeiro, o meu filho adoeceu gravemente e, para nós, foi praticamente impossível obter a assistência médica necessária. Eu estava habituada a que o médico viesse a casa — no meu país, as pessoas doentes chamam a ambulância ou o médico de família, em vez de irem para o hospital com febre e esperarem várias horas. Não tínhamos os medicamentos necessários, ainda não tínhamos carro, pois tínhamos chegado há pouco tempo, e era muito difícil comunicar com os médicos no hospital, já que ainda não falávamos português. Foi uma experiência extremamente exigente e marcante.

Lembra-se da primeira coisa que fez quando chegou a Portugal? 

Saímos para a rua e passámos um longo tempo num café na praia, a observar o nosso filho, que brincava alegremente na areia quente. Acreditem, para nós parecia um verdadeiro conto de fadas! Quando partíamos de São Petersburgo, chovia e a temperatura estava por volta de 5 °C. E, de repente, surgiu uma paisagem tão bonita! Falando de coisas mais sérias, a primeira providência que tomámos foi tratar do número de contribuinte. Como nos tínhamos preparado para a mudança com antecedência, já tínhamos uma ideia aproximada da sequência dos passos necessários.

As pessoas que a mais apoiaram na integração continuam a ter a mesma importância para si? 

Sim, sem dúvida! Foi um apoio incrivelmente valioso. Houve várias pessoas sem cuja ajuda eu mal consigo imaginar a nossa adaptação em Portugal. Uma delas é o Padre João, sacerdote ortodoxo de Faro. Parece que a Providência nos guiou exatamente até este endereço, embora inicialmente devêssemos viver noutra cidade. A nossa casa alugada ficava no mesmo piso que a residência do Padre João com a sua família. Durante os primeiros anos e meio que passámos nessa casa, compreendi verdadeiramente o sentido do ditado “Como se estivesse no abraço de Cristo”. Sentia um apoio constante. Sinto-o até hoje, e continuamos a manter contacto. Para mim, ele é não só um sacerdote, mas também um grande amigo.

Que tipo de oportunidades Portugal tem oferecido? 

Senti plenamente a minha valorização como pessoa criativa. Recebia oportunidades para atuar em concertos, havia apoio na divulgação, e em 2019 o meu marido (na altura, já meu ex-marido) e eu organizámos o Festival Internacional de Arte Clássica e Contemporânea “Temporadas Russas no Algarve”, com o apoio da Câmara Municipal de Loulé e do seu presidente, Vítor Aleixo. Para nós, foi uma oportunidade inestimável de partilhar a cultura em que fomos educados, que amamos profundamente e que desejávamos divulgar. No âmbito deste festival realizaram-se concertos de música ao vivo (incluindo com artistas convidados da Rússia), transmissões de ópera, exposições de fotografia, espetáculos de ballet e muito mais. O festival realizou-se várias vezes, mas a guerra, infelizmente, mudou o enfoque das prioridades. Além disso, comecei a ser convidada para participar em concertos coletivos e festivais, onde apresentava romances russos, muitos dos quais, pelo caráter e melodia, se assemelham bastante ao fado português. E ainda houve uma reviravolta inesperada na minha vida criativa. Foi precisamente em Portugal, aos 54 anos, que voltei a subir a uma passarela profissional como modelo. É uma oportunidade incrível!  

Qual foi a coisa que a vivência no país lhe tirou em definitivo? 

Para ser sincera, nos primeiros anos eu literalmente chorava de frio no inverno dentro de casa. Em São Petersburgo, o aquecimento central está presente em todos os apartamentos, é muito barato, e a temperatura dentro das casas no inverno é de cerca de 23 a 25 °C. Aqui, para nos aquecer, era necessário sair à rua ou pagar muito — muito caro — por aquecedores elétricos. Portanto, por mais estranho que pareça, a “Portugal quente” acabou por me tirar o calor :) Com o tempo, tanto eu quanto o meu filho nos adaptámos, e isso deixou de ser um problema. Já o facto de não poder ver a minha mãe e os meus amigos é realmente sério. Mas essa oportunidade não nos foi retirada por Portugal. As viagens para a minha terra natal são atualmente demasiado caras, complicadas e, por vezes, perigosas. 

O clima é a principal vantagem de viver aqui?

O clima é importante, mas não é assim tão ameno como dizem nos sites para turistas e emigrantes :). Para mim, a vantagem mais significativa é o ritmo de vida tranquilo e equilibrado. Eu vivo em Loulé, uma cidade pequena no Algarve, e percebo que, por exemplo, em Lisboa a realidade é um pouco diferente. Mas mesmo nas grandes cidades portuguesas, a vida é mais calma do que em São Petersburgo. E o mais importante: o comportamento cordial e atento das pessoas umas com as outras. Também gosto muito do respeito pelo estatuto profissional do professor de música (apesar de, curiosamente, a remuneração na escola de música ser bastante baixa — podemos falar sobre isso separadamente?). Outra vantagem importante é a possibilidade de viajar para outros países da Europa com um orçamento muito moderado e sem visto. Isso significa que posso assistir a festivais de ópera não só em Portugal, mas também, por exemplo, em Itália e Espanha. Antes, eu não tinha essa oportunidade.

Qual é a desvantagem que gostava de acabar para sempre? 

Receio que não se trate de apenas uma desvantagem! Em primeiro lugar, as burocracias e incoerências. Diferentes funcionários de entidades oficiais podem exigir documentos diferentes e ter opiniões opostas sobre a mesma questão. Mas não existem regras e leis unificadas? E aquilo que atualmente me afeta mais: a discrepância enorme entre salários e preços das rendas. Se uma pessoa (um profissional altamente qualificado, ressalto) ganha menos de 1000 euros por mês, como é que poderá alugar um apartamento e viver? E, para complicar, ainda há férias não remuneradas durante todo o verão...Pois, vocês perceberam. Vamos finalmente fazer algo em relação a isto?

Essa desvantagem é suficiente para abandonar o país? 

Isso dificulta bastante a vida, mas as vantagens ainda assim pesam mais. Não, não vou deixar o país. Pelo menos aqui a minha vida e a do meu filho estão em segurança. E espero que em Portugal comecem a ocorrer mudanças capazes de melhorar o nível de vida de muitas pessoas e o nosso, em particular. Talvez seja altura de rever os orçamentos do Estado e dos municípios? Não é necessário um consultor? 

Já se sente portuguesa? Porquê? 

Não, não me sinto portuguesa. Será isso possível? Afinal, sou russa. Mas sinto-me parte desta sociedade; é aqui que me sinto em casa e onde gostaria de participar ativamente na vida comunitária. Além disso, tenho um sonho: publicar uma coletânea dos meus contos traduzidos para o português. Todos eles têm em comum o tema da vida dos jovens criativos de São Petersburgo ao longo de diferentes décadas, revelando os caracteres das pessoas e as particularidades de cada época. O meu português está a melhorar gradualmente (graças aos meus colegas e alunos!) e compreendo cada vez mais este país, que acabo por amar, apesar dos problemas.

O que era necessário acontecer para se sentir totalmente portuguesa? 

Para amar Portugal, não é necessário sentir-se portuguesa. 

Qual o motivo que a levaria regressar à Rússia? 

Não acho que isso seja possível. Gostaria de poder visitar, mas viver lá — não. Agora, a minha vida é aqui.