Entrevista a Helena Carolina Dias

A Médica Interna de Ginecologia e Obstetrícia garante que a incerteza é o principal obstáculo que os portugueses têm de enfrentar no acesso ao sistema de saúde porque no setor público muitos utentes continuam sem médico de família, e no privado existe uma preocupação sobre o valor a pagar por cada ato médico. Helena Carolina Dias defende a manutenção da triagem de Manchester para reduzir as listas de espera, já que, contribui para a segurança dos utentes.
"Portugal apresenta uma das taxas mais elevadas de doença mental na Europa"
Qual é o principal problema que cada português tem de enfrentar sempre que recorre ao sistema de saúde, seja público ou privado?
O principal obstáculo que os cidadãos portugueses enfrentam ao aceder ao sistema de saúde, independentemente de este ser público ou privado, é a incerteza. No setor público, essa incerteza tornou-se recorrente e, paradoxalmente, quase previsível. Há dúvidas constantes quanto ao tempo de espera para uma consulta de especialidade, à possibilidade de realização de exames em tempo útil e à continuidade do acompanhamento médico. Muitos continuam sem médico de família e, mesmo quando o têm, não sabem se será o mesmo profissional a acompanhá-los, devido à elevada rotatividade das equipas. A incerteza estende-se também ao local onde serão tratados, refletindo desigualdades persistentes entre regiões. Em várias zonas do interior e do sul do país, não se conseguem formar equipas completas, e os serviços de urgência estão encerrados ou funcionam de forma irregular. O acesso à saúde continua a depender excessivamente do código postal. Num contexto em que se valoriza cada vez mais a perceção individual, mais do que os dados estatísticos, pesa a sensação subjetiva dos utentes. Muitos deixaram de confiar. O Serviço Nacional de Saúde perdeu atributos essenciais que o deveriam definir: previsibilidade, fiabilidade e universalidade. Para um número crescente de portugueses, o SNS já não é suficiente. No setor privado, a aparente previsibilidade esconde uma incerteza de natureza distinta, mas igualmente relevante. O utente sabe que irá pagar, mas nem sempre sabe exatamente porquê, nem consegue antecipar com segurança o valor final a pagar. Em caso de cirurgia, é comum conhecer o médico principal que escolheu, mas desconhece quem será o anestesista, quem compõe a restante equipa cirúrgica e quem assegurará o seguimento clínico em caso de complicações. Ao contrário do setor público, não existem obrigações legais quanto à constituição de equipas de urgência, à exclusividade do anestesista durante o ato operatório ou à adoção de protocolos clínicos uniformes. Falta escrutínio, regulação da qualidade dos cuidados prestados e transparência sobre os resultados clínicos das instituições privadas. Acresce que a medicina privada, por natureza, tende a ser episódica, organizada em torno de atos isolados, fragmentada por consultas avulsas, apólices de seguro e capacidade financeira. Quando surgem complicações, é frequente recorrer ao Serviço Nacional de Saúde, onde se tenta resolver o que não foi devidamente tratado no setor privado. Para o cidadão, o desfecho é semelhante. Quer recorra ao setor público, quer ao privado, continua sem garantias de atendimento atempado, com qualidade assegurada, por uma equipa que o conheça e acompanhe de forma continuada. É neste vazio de previsibilidade que germina a desconfiança. Por isso mesmo, a refundação do sistema de saúde deve começar por um compromisso firme com o acesso equitativo, com a qualidade dos cuidados e com a construção de um sistema onde a confiança seja um pilar estruturante. Sem esse compromisso, continuaremos a navegar num território de incerteza, com todas as consequências que isso acarreta para a saúde individual e coletiva.
Qual é a garantia com que cada utente pode contar por parte de um profissional de saúde?
A única garantia efetiva que um utente pode esperar de um médico - ou de qualquer outro profissional de saúde - é a de ser tratado com competência, seriedade e respeito. O médico não pode prometer um desfecho clínico favorável, mas deve assegurar que atua com base no melhor conhecimento científico disponível, de forma independente, colocando sempre o interesse do doente acima de qualquer outro. Compete-lhe, igualmente, garantir disponibilidade para escutar, para explicar e para envolver o doente nas decisões relativas à sua saúde. Contudo, envolver o doente não significa validar todas as suas exigências. Assistimos, cada vez mais, sobretudo nos grandes centros urbanos, a uma inversão de papéis: doentes que sugerem técnicas cirúrgicas ou ditam opções terapêuticas, por vezes com base apenas em leituras avulsas ou descontextualizadas. É fundamental afirmar, com clareza, que embora o doente tenha o direito de recusar um tratamento, o profissional de saúde também tem o dever de recusar intervenções que possam comprometer a segurança ou que careçam de fundamento técnico. A liberdade profissional do médico, alicerçada na responsabilidade e no conhecimento, deve ser respeitada. Não é a ausência de erro que define a qualidade do cuidado médico, mas sim a seriedade com que se cuida e o respeito pela dignidade de quem, em situação de vulnerabilidade, procura ajuda. É essa postura que distingue a medicina como profissão e como compromisso ético — e não apenas como mera prestação de um serviço técnico.
Os tempos de espera por uma consulta e tratamento num hospital público são os mesmos que se verificam no sector privado?
A resposta é clara: não. Os dados mais recentes evidenciam diferenças substanciais entre os tempos de espera no setor público e no setor privado, tanto nos cuidados de saúde primários como nos hospitalares. Esta disparidade reflete-se não apenas na rapidez de acesso, mas também nas desigualdades estruturais do sistema e na forma como os cidadãos experienciam os cuidados de saúde. O Serviço Nacional de Saúde (SNS) assegura o acesso universal e tendencialmente gratuito à população. Contudo, esta missão fundamental traduz-se numa elevada pressão sobre os serviços. Nos cuidados de saúde primários, os dados da Deco Proteste (2024) indicam que mais de 52% dos utentes aguardam mais de um mês por uma consulta com o médico de família, e cerca de 16% da população não tem médico atribuído. Esta realidade compromete o acompanhamento de doenças crónicas, a promoção da saúde e o diagnóstico precoce. Nos cuidados hospitalares, o cenário é igualmente preocupante. O tempo médio de espera por uma primeira consulta de especialidade é de 104 dias — aproximadamente três meses e meio — segundo a Entidade Reguladora da Saúde. Mais de metade dessas consultas são realizadas fora dos prazos legais definidos como Tempos Máximos de Resposta Garantidos (TMRG). Especialidades como Oftalmologia, Ortopedia e Cardiologia são particularmente afetadas. Relativamente às cirurgias programadas, o tempo médio de espera ronda os 3,1 meses, sendo que cerca de 30% dos doentes são operados após o prazo máximo legal, conforme o Relatório de Acesso à Cirurgia Programada no SNS (Administração Central do Sistema de Saúde, 2023). Em algumas regiões, as listas de espera para cirurgias ortopédicas ou oftalmológicas podem ultrapassar um ano. Estas demoras têm impacto direto na qualidade de vida e nos prognósticos clínicos. De acordo com a Deco, 41% dos utentes referenciados para consulta hospitalar reportaram agravamento do seu estado de saúde durante o período de espera. No setor privado, a realidade é substancialmente distinta. As consultas de especialidade são, em regra, agendadas em poucos dias, dependendo da disponibilidade do médico. A acessibilidade rápida constitui um valor central do serviço privado, não existindo listas de espera comparáveis às do SNS. As cirurgias eletivas são habitualmente marcadas entre duas a quatro semanas, dependendo apenas da disponibilidade da equipa, dos equipamentos, do consentimento do doente e da cobertura do seguro de saúde. A disparidade entre os tempos de espera nos dois setores resulta de múltiplos fatores, de natureza profundamente estrutural. O SNS garante acesso universal, o que implica responder a uma procura massiva e heterogénea. Já no setor privado, o acesso está condicionado à capacidade de pagamento — direta ou através de seguro — funcionando como um filtro económico que limita naturalmente a pressão sobre os serviços. Esta diferença de base reflete-se também na gestão dos recursos. Nos hospitais e centros de saúde públicos, os défices persistentes de médicos, enfermeiros, técnicos e salas operatórias são uma realidade crónica. No setor privado, a gestão tende a ser mais flexível e orientada para a resposta imediata, ajustando horários, equipas e capacidade instalada em função da procura. Outra distinção relevante reside na forma de priorizar o atendimento. O SNS utiliza critérios clínicos, atribuindo prioridade aos casos mais graves, como é exigido do ponto de vista médico, o que prolonga inevitavelmente a espera para situações menos urgentes. No setor privado, a prioridade é determinada pelo utente pagante — o cliente — independentemente da gravidade, permitindo acesso rápido a consultas, exames e cirurgias. Por fim, o enquadramento financeiro marca também uma diferença decisiva. O SNS opera com um orçamento público limitado, enquanto os prestadores privados ajustam a sua oferta à procura e investem em mais capacidade sempre que exista retorno financeiro previsível. Estes fatores conjugam-se para criar um setor privado com tempos de espera significativamente mais curtos, mas cuja acessibilidade depende, em última instância, da disponibilidade económica de cada cidadão.
A triagem de Manchester continua a ser o melhor método para combater as listas de espera nos hospitais?
A triagem de Manchester é, sem dúvida, um método eficaz para organizar o atendimento nas urgências hospitalares, mas não deve ser confundida com uma solução para reduzir as listas de espera. Aliás, esse nunca foi o seu propósito. O objetivo central da triagem de Manchester é estabelecer prioridades de atendimento com base na gravidade clínica dos casos, garantindo que os doentes mais críticos são observados primeiro, independentemente da ordem de chegada. Este sistema contribui decisivamente para a segurança dos utentes, reduzindo o risco de eventos adversos em situações de urgência vital. No entanto, não encurta, por si só, os tempos de espera dos casos menos urgentes — pelo contrário, em contextos de elevada afluência de doentes graves, pode até prolongá-los. Importa sublinhar que a triagem de Manchester é um instrumento de gestão clínica, não de gestão de fluxos ou de capacidade instalada. A sua eficácia depende da correta aplicação por profissionais treinados, da existência de recursos humanos e materiais adequados, e da articulação com os restantes níveis de cuidados. Quando utilizada isoladamente, sem reforço da capacidade de resposta dos serviços, a triagem apenas redistribui a espera, não a elimina. Além disso, a triagem de Manchester aplica-se exclusivamente ao contexto das urgências hospitalares. As listas de espera que mais preocupam os cidadãos — para consultas de especialidade, exames complementares de diagnóstico ou cirurgias programadas — situam-se fora do âmbito da triagem e exigem soluções estruturais. A redução dessas listas passa por investimento em recursos humanos, modernização dos sistemas de informação, reorganização dos fluxos assistenciais e reforço da articulação entre cuidados primários e hospitalares. Por outro lado, é necessário promover uma cultura de literacia em saúde que ajude os cidadãos a compreender quando é efetivamente necessário recorrer às urgências. Uma parte significativa da pressão sobre os serviços de urgência resulta de situações que poderiam ser resolvidas em contexto de cuidados primários, se estes estivessem acessíveis e devidamente capacitados. Em suma, a triagem de Manchester é uma ferramenta clínica valiosa para garantir segurança e justiça no atendimento urgente, mas não constitui, nem deve ser vista como, uma resposta às listas de espera que afetam o sistema de saúde em Portugal. A resolução dessas listas exige uma abordagem integrada, estratégica e sustentada, centrada na reorganização dos cuidados e na valorização dos profissionais de saúde.
O que significa para si a necessidade de prestar os cuidados de saúde num tempo clinicamente aceitável?
Prestar cuidados de saúde num tempo clinicamente aceitável significa garantir que cada doente é atendido dentro de um prazo que não comprometa o seu prognóstico, a sua qualidade de vida ou a eficácia do tratamento. Não se trata apenas de cumprir metas administrativas ou responder com rapidez formal, mas de respeitar o intervalo máximo em que uma condição clínica pode permanecer sem intervenção, sem que daí resulte agravamento do estado de saúde ou perda de oportunidade terapêutica. Este “tempo aceitável” não é uniforme - varia consoante a natureza da situação clínica. Em casos urgentes, mede-se em minutos ou horas; em patologias graves, mas não emergentes, em dias ou poucas semanas; em situações eletivas, pode estender-se por períodos mais longos, desde que não haja risco de deterioração clínica ou sofrimento desnecessário. A definição de tempo clinicamente aceitável deve, por isso, ser informada pela evidência científica, pela experiência médica e pelo bom senso. Importa também considerar a perspetiva do doente. Um tempo clinicamente aceitável deve ser, simultaneamente, humanamente aceitável. A espera prolongada, mesmo que tecnicamente justificável, pode gerar ansiedade, sofrimento psicológico e perda de confiança no sistema de saúde. A dignidade do utente exige que o tempo de resposta respeite não apenas os limites da medicina, mas também os limites da espera emocional. Além disso, o conceito de tempo clinicamente aceitável deve ser integrado numa lógica de continuidade de cuidados. Não basta garantir um primeiro contacto dentro do prazo adequado; é necessário assegurar que o seguimento, os exames complementares e os tratamentos subsequentes decorrem com fluidez e sem ruturas. A fragmentação dos cuidados, mesmo quando o primeiro momento é oportuno, pode comprometer o desfecho global. Por fim, é essencial que este princípio seja assumido como um compromisso ético e organizacional por parte das instituições de saúde. A definição e o cumprimento de tempos clinicamente aceitáveis devem estar no centro da gestão dos serviços, da alocação de recursos e da avaliação da qualidade assistencial. Só assim se garante que ninguém espera mais do que aquilo que a medicina, a evidência e a humanidade permitem para assegurar um desfecho seguro, eficaz e digno.
Seria preciso um sistema único de saúde para dar resposta aos problemas causados pelo envelhecimento da população?
A criação de um sistema único de saúde poderia, em teoria, melhorar a coordenação entre níveis de cuidados, eliminar redundâncias e uniformizar critérios de acesso. No entanto, sem uma reorganização profunda do trabalho clínico e uma gestão rigorosa dos recursos humanos e tecnológicos, mesmo um sistema unificado corre o risco de perpetuar ineficiências e desperdícios. Atualmente, o sistema de saúde português - fragmentado entre o setor público, o setor privado e o setor social - apresenta duplicações de tarefas e funções que consomem tempo, energia e orçamento, sem acrescentar valor proporcional à qualidade dos cuidados prestados. Um exemplo paradigmático é o acompanhamento de uma grávida: seguida nos cuidados de saúde primários, referenciada para consulta hospitalar por motivo clínico, mantém simultaneamente o seguimento em ambos os níveis, acumula consultas de enfermagem e, não raramente, recorre também ao setor privado. O resultado é um circuito assistencial fragmentado, com múltiplos registos, exames repetidos e sobreposição de atos clínicos, sem verdadeira integração da informação ou do plano terapêutico. Num cenário de envelhecimento populacional - marcado pelo aumento da multimorbilidade, da dependência funcional e da necessidade de cuidados continuados - este tipo de redundância torna-se insustentável. A resposta aos desafios demográficos exige mais do que a unificação formal do sistema: requer uma redistribuição inteligente de funções entre médicos, enfermeiros, técnicos e cuidadores, libertando os profissionais das tarefas que não são estritamente clínicas e garantindo que o acompanhamento do doente é coordenado, sequencial e centrado na pessoa. Além disso, é fundamental investir na interoperabilidade dos sistemas de informação, na partilha de dados clínicos entre instituições e na adoção de modelos de cuidados integrados, que permitam uma gestão eficiente dos percursos de saúde, especialmente em situações de cronicidade e dependência. A integração não se faz apenas por decreto: exige cultura organizacional, liderança clínica e compromisso político. A criação de um sistema único pode ser uma oportunidade, mas não é uma solução em si mesma. Sem uma reforma estrutural que promova a articulação entre cuidados de saúde e cuidados sociais, que valorize o trabalho em equipa e que coloque o doente no centro do sistema, continuaremos a enfrentar os mesmos problemas, apenas sob uma nova designação. Em suma, perante o envelhecimento da população, o que se impõe não é apenas a unificação do sistema, mas a sua transformação. Uma transformação que privilegie a continuidade, a proximidade, a eficiência e a dignidade dos cuidados prestados.
A saúde mental já pode ser vista como uma doença crónica dos portugueses?
Eu não sou psiquiatra, mas parece-me que sim - e que este fenómeno está longe de ser exclusivo de Portugal. O nosso país apresenta uma das taxas mais elevadas de doença mental na Europa, com uma prevalência particularmente significativa de perturbações de ansiedade e depressão. Muitas destas condições têm uma evolução prolongada, marcada por fases de melhoria e recaída, exigindo acompanhamento continuado, tal como acontece com outras doenças crónicas. Contudo, as causas da doença mental vão muito além da esfera clínica. Como lembrava Viktor Frankl, a humanidade oscila entre dois estados fundamentais: a angústia e o tédio. Tradicionalmente, a angústia — provocada por desafios, perigos ou exigências — ocupava mais a atenção dos médicos. Hoje, paradoxalmente, é o tédio que parece trazer mais problemas aos consultórios de psiquiatria. Vivemos numa época em que há, teoricamente, mais tempo disponível fora do trabalho, mas nem sempre acompanhado por oportunidades ou competências para o preencher de forma significativa. O culto do lazer e o culto do “eu”, amplificados pelas redes sociais, promovem uma busca incessante por gratificação imediata e validação externa, mas oferecem pouco em termos de sentido duradouro. Esta combinação pode gerar um vazio existencial profundo, que se traduz em sofrimento psíquico persistente - muitas vezes com características de doença crónica. Reconhecer a saúde mental como uma condição crónica implica ir além do tratamento episódico dos sintomas. Exige a criação de respostas continuadas, acessíveis e integradas, mas também a promoção de condições sociais, culturais e educativas que ajudem as pessoas a encontrar significado, pertença e realização pessoal — antídotos poderosos contra o mal-estar silencioso que afeta tantas vidas, em especial entre os mais jovens. Garantir cuidados adequados em saúde mental significa reconhecer que estamos perante uma dimensão essencial da saúde pública, que exige resposta célere, contínua e integrada. A saúde mental não pode continuar a ser tratada como um apêndice do sistema, mas sim como um eixo central da política de saúde, sobretudo num país onde os indicadores de sofrimento psicológico, ansiedade, depressão e ideação suicida têm vindo a aumentar de forma preocupante - particularmente entre os jovens. A meu ver, é fundamental garantir equipas multidisciplinares, com psicólogos, psiquiatras, enfermeiros especializados e técnicos de serviço social, capazes de responder às diferentes fases e formas de sofrimento mental. A resposta não pode ser episódica nem fragmentada. A continuidade dos cuidados, o acompanhamento próximo e a articulação com os serviços educativos, sociais e comunitários são indispensáveis. No caso dos jovens, a intervenção precoce é absolutamente decisiva. A adolescência e a juventude são períodos de vulnerabilidade emocional, em que os sinais de sofrimento podem ser subtilmente expressos e facilmente ignorados. A escola deve ser um espaço privilegiado de deteção e encaminhamento, mas para isso é necessário que existam profissionais disponíveis, capacitados e integrados em redes de apoio. A ausência de psicólogos escolares em número suficiente, a escassez de consultas de pedopsiquiatria e a falta de programas estruturados de promoção da saúde mental são falhas que comprometem o futuro de milhares de jovens. Além disso, é urgente combater o estigma. Muitos continuam a evitar procurar ajuda por receio de julgamento ou incompreensão. A saúde mental deve ser tratada com a mesma seriedade, dignidade e naturalidade com que se trata qualquer outra condição médica. Isso exige campanhas de sensibilização, formação dos profissionais de saúde e uma mudança cultural profunda. Em suma, garantir cuidados adequados em saúde mental é assegurar que ninguém fica para trás num dos domínios mais sensíveis da vida humana. É proteger a dignidade, a autonomia e o bem-estar das pessoas. E, no caso dos jovens, é investir no presente para garantir um futuro mais saudável, mais equilibrado e mais justo.
Qual é a explicação científica para as doenças crónicas serem um dos principais fatores de morte em Portugal?
Em Portugal, as doenças crónicas são atualmente uma das principais causas de morte, o que se explica por uma conjugação de fatores demográficos, epidemiológicos e comportamentais. O país tem uma das populações mais envelhecidas da Europa. À medida que a esperança média de vida aumenta, cresce também a probabilidade de desenvolver doenças associadas ao envelhecimento do organismo e à acumulação de fatores de risco ao longo das décadas. Entre estas, destacam-se as doenças cardiovasculares, os vários tipos de cancro, a diabetes e as doenças respiratórias crónicas. Nas últimas décadas, assistimos a uma transição epidemiológica significativa. As doenças infeciosas, que em tempos foram responsáveis por grande parte da mortalidade, estão hoje amplamente controladas graças à vacinação, aos antibióticos, ao saneamento básico e à melhoria das condições de vida. Este sucesso permitiu que as doenças crónicas - mais relacionadas com estilos de vida e com o envelhecimento - passassem a ter um peso muito maior na carga global de doença. A esta realidade somam-se fatores de risco que continuam muito presentes na população portuguesa: o sedentarismo, uma alimentação desequilibrada (rica em sal, açúcar e gorduras saturadas), o consumo excessivo de álcool, o tabagismo, a poluição ambiental e o stress crónico. Muitos destes comportamentos potenciam processos patológicos lentos e cumulativos, que podem decorrer durante anos sem sintomas evidentes, mas que, quando se manifestam, já provocaram danos significativos - muitas vezes irreversíveis. Além disso, a gestão das doenças crónicas exige um acompanhamento continuado, multidisciplinar e centrado no doente. Quando esse acompanhamento falha - por falta de acesso, de literacia em saúde ou de coordenação entre níveis de cuidados - o risco de descompensações, hospitalizações e morte aumenta substancialmente. É por isso que, apesar dos avanços no diagnóstico precoce, na terapêutica e na tecnologia médica, as doenças crónicas continuam a ser responsáveis por grande parte da mortalidade em Portugal. A resposta a este desafio passa por uma abordagem integrada, que combine prevenção, promoção de estilos de vida saudáveis, diagnóstico atempado e cuidados de saúde organizados em torno da continuidade e da proximidade.
De que forma os profissionais de saúde deveriam ser melhor recompensados pelo trabalho que efectuam?
Os profissionais de saúde devem ser recompensados de forma justa, proporcional à exigência, responsabilidade e impacto do trabalho que realizam. Essa valorização começa por uma remuneração base competitiva, capaz de atrair e reter talento qualificado, mas deve ir muito além disso: exige um sistema de progressão na carreira que seja claro, célere e funcional. Não é admissível que concursos para progressão demorem sete, dez ou mais anos a concretizar-se. Os serviços devem contar com profissionais distribuídos pelos vários graus das carreiras, como é recomendado, garantindo equilíbrio nas equipas, motivação ao longo do percurso profissional e reconhecimento efetivo da experiência acumulada. A valorização implica também distinguir e recompensar o mérito. Os profissionais devem ser reconhecidos não apenas pelo tempo de serviço, mas pela qualidade clínica, pela capacidade de resposta, pela dedicação e pelo contributo para a melhoria dos resultados em saúde. O desempenho deve ser avaliado com critérios transparentes e justos, promovendo uma cultura de excelência e responsabilidade. É igualmente necessário diferenciar as áreas de atuação consoante o grau de pressão, a complexidade técnica e as consequências associadas ao exercício profissional. As especialidades não são todas iguais: algumas lidam diariamente com decisões críticas de vida ou morte; outras exigem disponibilidade permanente; outras ainda operam em contextos de risco elevado ou em zonas de difícil acesso. O modelo remuneratório deve refletir essa diversidade, valorizando de forma proporcional o nível de exigência e de responsabilidade. Por fim, é urgente rever a tributação sobre o trabalho suplementar. Atualmente, grande parte do esforço realizado em horários noturnos, fins de semana ou feriados é absorvido pelos impostos, retirando ao profissional o retorno justo pelo sacrifício pessoal e familiar que assume para manter os serviços a funcionar. Esta penalização fiscal desincentiva o esforço adicional e contribui para o desgaste das equipas. Reconhecer, na prática, o valor dos profissionais de saúde exige mais do que palavras: exige pagar melhor, promover mais depressa, diferenciar responsabilidades e aliviar a carga fiscal sobre o trabalho suplementar. É uma questão de justiça, mas também de sustentabilidade do sistema. Sem profissionais motivados, valorizados e respeitados, não há qualidade nem confiança nos cuidados de saúde.