Entrevista a Nuno Gouveia

11-12-2015 21:53

 

As presidenciais norte-americanas começam em Fevereiro, mas a campanha eleitoral começou antes do Verão. Nos democratas a ex-primeira-dama deve ganhar as primárias, enquanto o exagero de candidaturas nos republicanos fez emergir a figura de Donald Trump. O empresário tem tido algumas declarações polémicas, mas continua em primeiro nas sondagens. A nomeação na oposição deverá acontecer na recta final. O autor do blogue "Era uma vez na América", Nuno Gouveia explicou ao OLHAR DIREITO as razões dos fenómenos Donald Trump e Ben Carson, além de ter feito uma previsão antes do arranque das primárias.

 

"se tivesse que apostar, diria que a disputa final nos republicanos será entre Marco Rubio e Ted Cruz"

 

 

Na sua opinião qual é o adversário (republicano) mais complicado para Hillary Clinton?

O senador da Flórida, Marco Rubio, é muito provavelmente o adversário mais difícil para Hillary Clinton. Rubio é jovem (tem apenas 44 anos), descendente de cubanos e representa uma nova face do conservadorismo americano. Além disso, é capaz de fazer a ponte entre os sectores mais conservadores (inicialmente foi apoiado pelo Tea Party na Florida na sua corrida ao Senado em 2010) e as elites do Partido Republicano. É, talvez, o mais articulado dos candidatos e nos debates tem demonstrado ser o mais eficaz entre todos os republicanos. Ao contrário de outros candidatos republicanos, tem uma visão optimista do futuro e não apresenta o ressentimento e até a fúria de outros, o que pode ser fundamental para captar apoio no eleitorado moderado e independente. É um grande comunicador e, curiosamente, já foi considerado o Obama dos republicanos por adversários políticos, colocando enfase nos seus dotes comunicacionais. Além disso tem uma história de vida que encaixa perfeitamente no sonho americano e que ele não se cansa de utilizar para seu benefício: filho de refugiados cubanos (emigraram antes da queda de Fulgêncio Batista), o seu pai era barman e a mãe empregada de hotel. De origens muito modestas, só recentemente pagou os empréstimos da universidade. O contraste seria gritante, pois teríamos um jovem candidato de 44 anos contra Hillary Clinton de 69, um pouco à semelhança do que sucedeu em 2008 entre Obama e McCain. Mas também apresenta fragilidades, como a sua inexperiência e os fracos resultados que teve no Senado (a sua peça legislativa mais importante, e que até lhe está a dar problemas nestas primárias, a reforma da imigração, acabou derrotada na Câmara dos Representantes). Inicialmente a campanha de Hillary estava mais preocupada com Jeb Bush, mas nos tempos mais recentes direcionou as suas atenções para Rubio. E ainda recentemente o antigo estratega democrata de Bill Clinton e muito próximo da família, James Carville, defendeu que no campo republicano apenas Rubio tem hipóteses de derrotar Hillary.

Entende que o discurso contra a imigração de Donald Trump está a ser bem recebido pela população norte-americana?

Neste momento a população americana ainda não está a olhar com muita atenção para estas primárias. Mas todas as indicações que temos é que, apesar do discurso de Trump ter popularidade entre os eleitores republicanos (apesar de não passar da casa dos 30% em nenhuma sondagem), os seus níveis de aprovação na população americana é baixa. Segundo uma sondagem da ABC News da semana passada, apenas 38% dos americanos têm uma opinião positiva sobre Donald Trump, em contraste com as 58% de respostas negativas. Entre as minorias, a sua popularidade é muito baixa, e se tradicionalmente os afro-americanos votam no Partido Democrata, a sua impopularidade entre o eleitorado hispânico pode ser dramática para os republicanos, que nas últimas presidenciais apenas tiveram 27% deste grupo demográfico. Se Trump fosse o nomeado, teria certamente menos votos do que Mitt Romney entre este eleitorado, o que poderia ser crucial em swing-states como o Nevada, Flórida ou Colorado. 

Por que razão Donald Trump e Ben Carson lideram as sondagens, sendo que são dois candidatos que estão "fora do aparelho partidário". 

Se calhar é precisamente por isso. Neste momento há uma maioria de eleitores da base republicana, e que são os eleitores mais disponíveis para participar nas primárias, que estão muito descontentes com os líderes do seu partido. E tendem a preferir candidatos que sejam contra o sistema e que apresentam um discurso populista e radical contra Washington, mesmo que cometam tantas gafes, digam tantas asneiras ou até mentiras. Isso explica que políticos experientes como o antigo governador do Texas, Rick Perry, o ainda governador do Louisiana, Bobby Jindal e o governador do Wisconsin, Scott Walker, já tenham abandonado a corrida. Ou as dificuldades do governador de New Jersey, Chris Christie ou do antigo governador da Flórida, Jeb Bush. Neste momento os eleitores republicanos pretendem algo de "novo" e um candidato com um discurso antipolíticos. Trump é um empresário de sucesso e Ben Carson um famoso neurocirurgião  Mas sem experiência política nenhuma, e num outro ambiente mais moderado, seriam desqualificados à partida. E mesmo que não o fossem, depois do que já disseram nesta campanha, já não estariam na liderança das sondagens. Neste momento assistimos a uma queda de Ben Carson, que poderá, ou não ser definitiva, mas Trump tem mostrado maior resistência, estando a suscitar uma espécie de ataque de nervos nos líderes republicanos, que sabem que seria péssimo para o partido ter um candidato como Trump nas eleições gerais contra Hillary Clinton. Além do mais, têm receio que as suas declarações bombásticas venham a ser utilizadas nas gerais para caracterizar o Partido Republicano como racista, misógino e anti-imigração. O problema é que a alternativa dos populistas nesta corrida é Ted Cruz, senador do Texas e que é detestado pelas elites republicanas, devido às suas posições divergentes e demasiado à direita. Daí que, caso Jeb Bush não consiga recuperar em breve nas sondagens, as elites provavelmente irão apostar tudo em Marco Rubio para vencer as primárias. Neste momento há grandes incertezas e apenas serão desfeitas em Fevereiro do próximo ano, quando os eleitores do Iowa e New Hampshire começarem a votar.

Qual a razão dos maus resultados de Jeb Bush?

Jeb Bush, no papel apresentava grandes qualidades como candidato: governador de sucesso de um grande estado swing-state, potencial apoio das elites e dos grandes financiadores republicanos. O nome "Bush" até poderia ser o causador da sua queda nestas primárias, mas não tem sido só isso. O problema é que Bush representa nestas eleições algo que os eleitores das primárias recusam: o establishment e a moderação política. Para os eleitores, Bush faz parte do problema de Washington que eles querem derrotar. Além disso, Bush tem tido prestações sofríveis nos debates, e em nenhum deles demonstrou qualidades que possam impressionar os eleitores. A última vez que Bush disputou umas eleições foi em 2002 na Flórida, e claramente não tem sido um candidato eficaz e com grandes capacidades comunicacionais. Penso que se preparou mal para estas eleições. Mas atenção: Bush é o republicano com mais dinheiro angariado e ainda pode recuperar até as primárias no New Hampshire. Parece-me que já estará fora da disputa no Iowa, mas no New Hampshire ainda pode ter uma hipótese e com isso relançar-se para as restantes eleições. Em três meses muito ainda pode acontecer, e recordo que por esta altura em 2007, quem liderava as sondagens era Rudy Guiliani, seguido de Fred Thompson, sendo que o nomeado foi John McCain, que disputou as primárias com Mitt Romney e Mike Huckabee. Os dois primeiros das sondagens de Novembro desse ano não venceram uma única primária. Neste momento, e se tivesse que apostar, diria que a disputa final será entre Marco Rubio e Ted Cruz.

Nas primárias, Hillary Clinton vai preocupar-se mais com os republicanos ou com os adversários democratas?

Hillary Clinton tem tido uns meses difíceis, com os diversos escândalos que a têm afectado, nomeadamente os financiamentos da Fundação Bill Clinton ou o caso do servidor de correio electrónico privado que terá usado enquanto Secretária de Estado. Mas depois da ascensão de Bernie Sanders nos meses do Verão e da ameaça da entrada de Joe Biden na corrida, Hillary neste momento já está mais concentrada nos republicanos. Isto nota-se nos seus discursos de campanha, onde raramente tem mencionado Sanders e tem-se dirigido sobretudo aos candidatos republicanos, fazendo duros ataques às suas políticas económicas e colocando em contraste a sua política externa com a dos seus adversários. Claro que até às primeiras eleições do mês de Fevereiro, não vai descurar totalmente a campanha democrata, e quererá vencer logo no Iowa e New Hampshire, para resolver rapidamente as primárias. Sanders aposta tudo em vencer no New Hampshire e depois tentar catapultar-se como sério candidato nas restantes eleições. Sanders tem surpreendido, sobretudo pelo enorme movimento de apoio que tem gerado, o que se tem traduzido em muitos milhões de dólares e bons números nas sondagens, sobretudo nos primeiros estados a irem a votos, o Iowa e New Hampshire. Mas a sua visão demasiado à esquerda é considerada inelegível numas eleições gerais, e as elites democratas apostam tudo em Hillary Clinton. Honestamente, e mesmo que Sanders ganhe no New Hampshire (é possível, até porque tem liderado aqui as sondagens nos últimos meses), não acredito que Hillary tenha grandes dificuldades em vencer as primárias. Se não for antes, a partir da super terça-feira, que irá decorrer a 1 de março, vai dedicar-se inteiramente às eleições gerais.

Quais vão ser os principais temas da campanha nas primárias?

Até pelo que aconteceu recentemente, o terrorismo e o ISIS vão ser temas dominantes nestas primárias. A política externa será essencial nestas primárias e também nas eleições gerais, depois de nas eleições de 2012 ter estado mais arredada da discussão pública.Os democratas tentarão discutir o tema da imigração (para obter vantagens entre o eleitorado hispânico), a desigualdade na sociedade americana e o combate à pobreza. Os republicanos tentarão explorar algumas fragilidades que a economia ainda apresenta e tentarão colocar novamente o combate à lei da saúde de Obama na ordem do dia, que ainda permanece impopular em muitos estados. Os republicanos têm discutido também as questões relacionadas com a imigração, com uma tónica totalmente diferente dos democratas, colocando enfase no combate à imigração ilegal. Depois haverá sempre temas que podem surgir na arena política: a discussão sobre o controlo das armas (caso haja mais um ataque criminoso); a política energética; a reforma da segurança social; a questão da dívida federal; a educação. Esta eleição terá novamente uma discussão sobre o papel do Estado na economia e na sociedade, com visões totalmente diferentes entre os dois partidos.